Nos últimos dois posts pouco contei sobre a minha vida parisiense...sim, agora é mesmo parisiense e se não fosse o sacana do senhorio estaria para acabar, mas cá vou ter que ficar pelo menos até 23 de Agosto. Pelo meio irei visitar amigos na Suíça, em Barcelona, Madrid, e quem sabe Inglaterra se tiver o tempo e o dinheiro. O plano é regressar em grande, de carro. Um Paris-Dakar de 1700 Km com términos em Lisboa. Se tudo correr bem o meu co-piloto será um grande amigo sérbio!! ^_^
Bom, mas antes de tudo isso, a minha vida mudou bastante desde Orly...a bem dizer a mudança começou mesmo quando cheguei das férias de Natal a Paris. Fria, branca, acolhedora não fosse eu ter saído com o Pepe logo nos primeiros dias...e quem me mandou a mim. Nessa célebre noite de frio, quando tomávamos o nosso café frente ao Pompidou, alguém liga para o Pepe, para irmos ter com eles. Um grupo de Erasmus estava a patinar frente ao Hotel de Ville. Foi nessa grande noite que conheci duas pessoas.
Tão simples e tão profundo como isso. Conhecer pessoas.
Não só um "Olá, tudo bem? De onde vens?"...mas conhecer. Encontrar alguém que nos toca. Essa noite fria é um dos momentos mais vivos da minha memória Erasmus, tal como quando encontrei o Pepe nos Champs de Mars, ou o Henry e a Rebecca na faculdade.
Nessa noite conheci a Mireia e a Elena.
Talvez a culpa de eu não mais voltar a escrever com a frequência (escassa eu sei) neste blog tenha sido delas. Se com o Pepe eu já saía quase todas as noites, com elas então passou a ser mesmo o tempo todo. Sair da faculdade sem ter plano, sem telefonar ou enviar uma mensagem a perguntar "Que haceis hoy?" parecia mentira...a bem dizer, nestas últimas semanas, agora que já voltaram para terra além perinéus, até que parece mesmo mentira.

Tudo o que se passou no meu tempo em Paris, entre o Natal e até à três semanas atrás, passou também por elas, por outras pessoas muito importantes também, mas por elas sempre. Nem sei bem por onde começar, e não me digam pelo início, porque conhecer pessoas assim não tem nem princípio nem fim. Mas, para dar uma achega ao quão a minha vida mudou...
Foi com elas que conheci o Pop In, o Open Mic de Domingos à noite. Um local quase de culto para todos os amantes de música, canto-autores, cerveja e maluquice quanto baste. Foi por elas que conheci no Pop In o Fabien Fabre (vejam e devorem o seu MySpace ^_^).
Foi com elas que comecei a frequentar o "Les Cigognes", que é só o bar da minha vida! Foi o Luís que me levou lá a primeira vez, e que nos acompanhou sempre. E elas sempre estiveram presentes. Local de encontro, reencontro, de lamento, de brutais bebedeiras, de risos tão largos, de "Gosto", de queixo no chão com a Claire, de muitas 4.2
Foi com elas que conheci a mítica vila de Vitry-sur-Seine. Entre Paris e Orly, uma vila simpática, de casas de poucos andares, com pequenos quintais nas traseiras, com um dos melhores mercados da Île-de-France. Não é que o mercado seja grande, mas é pela gente que aí se cruza. Romaria a Vitry aos fins de semana passou a ser tradição. Foi onde finalmente conheci a Irene. Outra pessoa que é ao mesmo tempo tão pequena e tão maravilhosa. Foi aí que dormi algumas noites, escutando música, cachimba marroquina, chocolat chaud pela noite, e pela manhã (quase tarde) uma maravilhosa pizza (quase tarte) de beringela com muita coisa...eu nem gosto de beringela, mas sabia-me tão bem. Vitry é também o habitat natural de um Guaxinim e de um Wookiee.
Foi com elas que saí para todo o lado. Casas ocupas no Canal St Martin ou em Glaciére. Pique-niques à beira sena, seja na ilha de Saint Louis, seja no cais de Austerlitz, seja no Batofar, seja no Jardim das Plantas, seja em Barbés, seja para as várias festas ao longo destes meses. Ir ao P'tit Grec sem elas era (e é) como comer um crepe sem nada. Sem sabor.
Foi com elas também que tive um dos melhores aniversários da minha vida. "Born to be Panda" foi o mote que deu origem a uma surpresa fantástica. E pelo que sei foi no Cigognes que tudo foi planeado. No meu aniversário apareceu toda a gente em minha casa, tudo pintado, imaginem lá, de Pandas. Incrível!!
Foi com elas que fiz duas festas. Uma em Orly, em jeito de despedida, e uma outra festa, a de inauguração, em Denfert.
Foi com elas que fui a Lisboa em Maio. Que bom que foi!!
Foi com elas que o meu castelhano upa upa!!
Foi ainda com elas que voltava sempre para casa em Orly. As inesquecíveis noites de Noctilien. Autocarro nocturno que apanhávamos em Austerlitz, e onde eu e a Mireia cantávamos sempre (quase sempre, porque algumas noites ela adormecia). A música preferida foi sempre o medley do Moulin Rouge.
Ainda haveria tanta coisa para dizer, tantos momentos que não quero nem vou esquecer. São momentos que agora fazem parte deste ser que partilha aqui algumas memórias.
Depois de voltar das férias de Natal, uns meses mais tarde apareceu outra pessoa, que já conhecia, mas que a bem dizer estamos sempre a aprender e a conhecer, mais e mais. A Sofia veio fazer Erasmus para Paris. Procurámos casa para dois e descobrimos um primeiro andar, sobre uma Boulengerie, casa refeita a nova, Rue Daguerre em Denfert-Rochereau, 14eme arrondissement. Aqui vivemos os dois desde Março, e não sei quantas vezes já lhe disse, e penso que nunca será suficiente - Adoro viver com a Sofia. Das pessoas mais transparentes, práticas que conheço. Além disso atura-me ^_^ Adoro o bairro, adoro a vida da minha rua, os bares Jazz, o comércio de rua, as Velibs e a torre de Montparnasse que se vê do meu pequeno sofá.
Dos momentos mais caricatos aqui em casa foi encontrar a maioria das nossas mobílias extra na rua. Numa noite em que chegámos ao metro e a Sofia se esqueceu do passe, voltámos atrás, e nesse regresso encontrámos um sofá, uma mesa, um banco, uma mesa de cabeceira. Tudo o que era suposto comprarmos para compor de vez a casa. Tudo coisas em bom estado, ou quase. Nesta casa temos sempre pão, morar por cima de uma boulengerie tem as suas vantagens. Pain au chocolat e baguette Tradition ainda quentinhos pela manhã. É só descer, comprar e subir - priceless!! (quer dizer, preço tem :p)

Finalmente tenho um quarto em Paris que posso dizer meu. Onde tenho fotos na parede, mensagens e postais de amigos na porta. Posters afixados, e a natural desarrumação de qualquer quarto que eu habite.
De todas estas maravilhas, mesmo assim, ainda há coisa que custam. Ver partir os nossos amigos. Uma verdade inevitável mas sempre adiada no nosso pensamento...até ao dia. Primeiro o Luís...o meu mentor em Paris...tudo o que eu sei da vida prática em Paris, o Luís já o sabia e partilhou tudo comigo. Depois quase em cadeia a malta Erasmus. A Irene foi a primeira das moicanas a partir...logo depois o Max, a Elena, a Mireia, a Chiara...para o fim ficámos nós. Os resistentes...la résistance!! O Dani, o Pepe e eu...
...e também as minhas fotos. Mementos...
Penso mesmo que a principal diferença, entre quem já foi e eu que fico cá mais uns tempos, é que eu continuo a por coisas na parede. As saudades, essas, continuam a crescer, peludas, gordas, ruidosas, nunca parando quietas. Se ao menos lhes crescessem asas e voassem...
Panda
De la Banlieue à Paris, do "Olá" às saudades
